Me recuso a acreditar que esse sentimento de vazio permanente seja algo comuns a outros da minha espécie, pois eu já me senti diferente. Já me senti entorpecida, animada, certa e segura, nessa exata ordem com meus amores oficiais. Esse vazio não é comum. Não pode ser.
Como se o buraco que se formou no meu tórax fosse suficientemente grande para que todos vejam o que se passa do outro lado de mim. Eu sinto a brisa gelarem meu interior conforme eu dou passadas mais rápidas ou quando bate uma brisa.
Nesse espaço em branco, me retirou o prazer de coisas simples, como o fim de uma jornada de trabalho intensa, deitar na cama depois de um dia cansativo, o release de um episódio de uma série que acompanho, o nascer da lua cheia, o friozinho do fim do outono, a espera do fim de semana, a gula de uma comida gostosa.
Agora levanto as 7h porque tenho que. Como porque preciso me manter de pé. Deito porque meus músculos pedem. Saio do consultório porque acabou o expediente. Vejo a série porque é melhor do que ficar remoendo esse turbilhão de coisas vazias que me acontecem, me vem e vão. Paro pra pensar em tudo, e simplesmente nada me vem a cabeça. Eu paro, paraliso. Mente e corpo.
Tento ocupar meu tempo, e quanto mais eu o ocupo, mais acho que gostaria de tempo livre, e quanto mais tempo livre, mais me sinto como se tivesse de estar ocupada. Nesse looping infinito de automatismos vazios e pensamentos ocos.
Eu nunca me senti assim antes. Já me senti desvairada, triste, chorosa, revoltada, enlouquecida. Mas esse nada...